[ARTIGO] O FIM DA VIDA E O INÍCIO DA MORTE

Foto: Reprodução/Instagram

Eu vivi a experiência da ‘quase morte’. Ela consiste no olhar a morte, com os pés ainda fincados na vida. Fui instigado por muitas pessoas a abordar esse fenômeno, como uma possibilidade de ajudar na reflexão acerca da nossa existência e o que fazemos com ela. O modo de viver a vida e como a tornamos com significado permanente, inclusive preparando-a para morte. A contemplação desta é terrificante, nos coloca em situação de olhar as possibilidades das realidades e estações da vida, com suas reminiscências e recordações. Muitos com os quais tivemos alguma experiência, tomam o seu lugar nas nossas degradantes possibilidades de vitalidade ainda existentes. O ponto mediano entre o fim e o início é a forma fugidia de tentar um retorno ao estado de vida. Não paramos, corremos, lutamos, questionamos e, às vezes, conseguimos regressar, como aconteceu comigo. Com frequência, depois de tudo isso, sou reconhecido pelas pessoas, com as quais nunca convivência como “o padre do milagre”.

A nova chance nos faz repensar tantas coisas; dentre elas, o novo modo de viver a vida. Valorizar cada minuto com aquilo e com as pessoas que realmente, não só passam; mas que estão permanentemente em nossas memórias e circunstâncias. A maior inserção no presente, por causa do eterno; pois este tem uma relação com aquele de forma instantânea. Que querem o nosso bem e nos mostram que tudo na vida tem um sentido. Entendi na ‘quase morte’ que estes tempos estão confusos e associados inteiramente. Santo Agostinho estava certo. Quiçá ele também tenha experimentado uma ‘quase morte’ para falar tão bem do que verdadeiramente é o tempo (cf. Confissões, Lv, XI). O contemporâneo vive um tempo sem presente, pois renega o passado, sem prospectar o futuro.  Estamos vivendo sem uma preparação para morte. Santo Afonso Maria de Ligório estava muito ciente e situado, quando escreveu sobre a importância da “preparação para a morte”; pois, este será sempre o feliz caminho de acolhê-la quando ela bater às portas da nossa consciência.

Na ‘quase morte’ há um pós-encontro do nosso Eu com tantos Tús. Devemos esperar o final de tudo, ou o Fim Último, que nos espera; ou teremos a bem aventurada Visão Beatífica, como nominaram os teólogos medievais. Entre a possibilidade do nada ou do tudo, confiemos no Tudo. Depois de viver o quase nada, não deixo de pensar e aguardar o Tudo; pois a vida é tão maravilhosa. Como não desejar e confiar na sua plenificação?! Não posso pensar diferente, já que tive a oportunidade de experimentar o indiferente. É isto: a morte é a indiferença total de tudo, por causa da possibilidade do encontro com o nada. Não quero mais o nada, já que passei a sentir mais, às duras penas penas, o quanto é maravilhoso o Tudo. Entregar-se ao não reconhecimento Deste, é também a negação do valor do que somos e temos agora. Quem zomba da possibilidade da existência da eternidade, já sofre as suas consequências aqui e agora, mesmo que sem o perceber, porque não viu ainda “o fim da vida e o início da morte”.

Queiramos viver para acolher o morrer; só assim, neste último, encontraremos o que foi vivido. Hoje, quando penso na realidade da morte, já posso acreditar que terei o encontro com as pessoas que tanto amo e que já partiram; dentre estas, sei que vou encontrar o meu pai. Que coisa magnífica! Só o Amor pode oferecer-me esta possibilidade. Vou encontrar-me com as verdades que Ele sempre concedeu-me na vida. Os tesouros não só os encontramos, como também estes nos encontram. Como não querer esta dádiva?! A experiência da ‘quase morte’ trouxe-me a convicção que sempre existe algo mais importante que podemos encontrar, cotidianamente, enquanto fazemos os caminhos da existência. A metáfora da vida como ‘Caminho’ é elucidativa. Enquanto caminhamos, o que verdadeiramente olhamos? O que nos afeta, realmente vale à pena? No dinamismo da existência, são tantas os acontecimentos que permitimos que nos alcancem e quando somos tocados pela ‘quase morte’, somos inundados pela convicção que nem todos podem ser reconhecidos, já que serão abarcados pelo nada num dia vindouro.

Enfim, vejam que coisa estranha! Medito sobre a vida, por causa da morte. Mas, longe de mim querer que ninguém passe pelo que passei para falar da vida. Quero que estas meditações os ajudem a não esperar pela morte para amar a vida. Amem a esta para viver bem aquela. O trocadilho foi repentino, porque a morte pode sê-lo, como tudo na vida. Já escrevi sobre o que vivi, mas desejei escrever pelo que passei, para que tenhamos “razões para esperar e acreditar na ressurreição” (cf. https://www.arquidiocesedenatal.org.br/post/a-ressurreição-e-a-esperança-no-mundo). Não queiramos voltar ao passado, para fugir do futuro. Pois ao contrário, só o passado bom será garantia de um futuro melhor, e não o contrário. O Passado não poderá ser fonte para o presente, porque ele também já passou. Ele não para.  ‘O fim da vida e o início da morte’ foram duas quase substancialidades, que passaram a ser a fonte mais originante para a maior valorização do aqui e agora da minha história. Assim o seja!

Por Padre Matias – Capelão da UFRN

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