
O drama teológico do contemporâneo é que não aprofundamos mais o mistério de Deus. A teologia necessita redescobrir a sua vocação por excelência. Depois que foi preceituado que a religião ficaria limitada pelos ditames da razão, houve a desconstrução sistemática e continuada da necessidade de Deus ao ser humano. A substituição do teológico pelo antropológico nos mancos e miseráveis do objeto da nossa condição transcendental, que está cada vez mais sendo revalidada em nossos dias. Contudo, a questão que si nos impõe é que temos muita religião, mas pouca fé; quando consideramos que é “Deus o objeto da teologia” (cf. Santo Tomás). A partir das construções filosóficas dos “mestres da suspeita” – Freud, Marx, Feurbach e Nietzsche – tivemos o reconhecimento de como o discurso sobre Deus na passagem da modernidade à pós-modernidade estaria sendo vulnerabilizado na cultura pós-cristã.
O que temos como percepção dos sinais dos novos tempos é que o fenômeno religioso ganha corpo. Está presente nos meios de comunicação, nas periferias das grandes cidades, espaços de poder, como as assembleias legislativas, com as bancadas da bíblia, e outras estruturas institucionais que não podem ser desconsideradas por nós. Contudo, parece-me que precisamos aprofundar essa diferença entre a narrativa religiosa, que permanece no âmbito da construção racional; mesmo tendo presente que para nós cristãos católicos a razão e a fé são duas vias que nos levam ao conhecimento da Verdade. O desenvolvimento teórico elaborado por aqueles “mestres da suspeita” (cf. Paul Ricoeur) encontra força num cristianismo que potencializou os elementos religiosos, que são secundários, depois do distanciamento gradual e histórico do acontecimento central e fundamental do Cristianismo das comunidades primitivas, com sua clarividente experiência do “encontro pessoal com Jesus Cristo” (cf. Bento XVI, Deus Caritas est, 1).
Diante deste cenário, que deveria ser preocupante à nossa pastoralidade e à nossa ação evangelizadora, quero provocar essa reflexão como observador de um cenário, principalmente na ordem sistêmica e social do nosso Brasil, que mesmo sendo de tradição católica, tem tomado cada vez mais elementos, que são consumidos para os alívios das frustrações existenciais e sociais, com a sonegação das lideranças religiosas que lucram e são alimentados por estes métodos pervertidos do mal uso da boa fé das pessoas, principalmente das pobres e abatidas, do “Cristianismo Puro e Simples”, ou da “Essência do Cristianismo” (cf. C.S. Lewis; Bruno Forte). Ouso afirmar que, nalguns casos, há mais religião eivada de paganismo. A teologia precisa apresentar esse problema, como uma preocupação pastoral delicada e que poderá nos trazer confusões, tanto para a própria identidade da Igreja, como para o desenvolvimento humano e integral das pessoas e seus reflexos na salubridade do ordenamento social. Temos que aprofundar os princípios fundantes da fé cristã e que constituem a genuína vitalidade da Igreja, como sacramento universal de salvação e sinal do Reino de Deus entre nós.
Sem dúvida, o ‘estatuto epistemológico’ da teologia não pode ser mais construído a partir da lógica medieval. Com a reviravolta copernicana na filosofia da ciência, aprimorada por Immanuel Kant (cf. “A Crítica da Razão Pura), que inverteu a pirâmide dos fundamentos do saber, e o reconhecimento deste paradigma pela Igreja, já com o Concílio Vaticano II, que colocou o mistério do ser humano, que só é respondido pela Verdade sobre Jesus Cristo (cf. Gaudium et Spes, 22), os rumos da ciência teologia também passam a considerar essa “mudança antroplógica-teológica” no desenvolvimento do seu sistema. Sem dúvida, além de outros, merece menção o teólogo Karl Rahner, que representa bem essa reforma dos fundamentos (cf. Curso Fundamental da Fé). Vejamos que há uma evolução, que quando chamamos em causa um outro gigante da teologia moderna, nos ombros do qual deveríamos subir, como o teólogo Teilhard de Chardin, somos chamados a ter presente que no início e no fim, tudo nos levará ao Cristo Total-Cósmico.
Por fim, merece uma atenção especial da nossa parte a encíclica do Papa Leão XIV, a “Magnífica Humanitas”. Com ela, a Igreja reconhece que estamos vivendo amplamente – igreja, sociedade, planeta, cultura – uma nova mudança de época. Tivemos a passagem do teológico ao antropológico; e agora uma outra superação do humano com as narrativas de fundo do transumanismo e pós-humanismo (cf. MH, 115-117). O ensinamento deste formidável documento do Magistério Social tem muito a nos dizer, inclusive ao modo com o qual teremos de pensar o dinamismo da fé nesta nossa Era. A expressão transversalizada pelo filósofo francês, Edgar Morin – Complexidade -, recentemente falecido, pode ter um lugar interessante na nossa reflexão teológica, caso queiramos estar situados aos problemas que nos são apresentados; pois estamos em tempos complexos. Enquanto humanos abertos ao transcendente, podemos nos abrir às possibilidades da ciência teológica, a fim de que ela possa ser um farol para fazermos a hermenêutica da histórica, iluminados pelo que ela genuinamente pode nos oferecer: A abertura da nossa condição humana às possibilidades do Amor e da Verdade que só Deus pode Ser.
Assim o seja!
Por Padre Matias Soares / Arquidiocese de Natal

